Música em Terras Capixabas no Sec. XVI?

Por Fábio Coruja

O Espírito Santo do sec. XVI já possuía os ingredientes necessários para a realização de música. Apesar de não existir nenhuma evidencia material como música escrita em partitura ou mesmo instrumentos musicais sobreviventes da época, outros documentos históricos embasam o argumento de que em território capixaba havia instrumentos musicais e músicos em circulação desde a chegada dos jesuítas. Na verdade, a história da música no Brasil do sec. XVI é deduzida por alguns estudiosos através dessa analogia: se tínhamos comprovadamente instrumentos musicais e pessoas com conhecimentos para tocá-los, logo é muito grande a possibilidade de que tivéssemos música. Dessa forma podemos considerar a música praticada pelos jesuítas na educação e na catequese, em seus Colégios ou Reduções, como a música histórica do sec. XVI no Brasil.

Estudos musicológicos afirmam que na Capitania do Espírito Santo no Sec. XVI viveu um dos primeiros músicos de que se tem notícia em terras brasilis: o cantor e mestre capela Francisco de Vaccas. Para o musicólogo Sergio Dias (2006), o músico teria vindo da Europa para desempenhar o papel de mestre capela no Colégio jesuíta de São Tiago na Ilha de Vitória onde certamente produziu e ensinou música. Vaccas foi provedor da Fazenda e juiz da Alfândega na Vila do Espírito Santo (atual Vila Velha) nomeado aos vinte e seis de fevereiro de 1550 pelos auxiliares mais próximos do governador geral Thomé de Sousa, e permaneceu na donataria por dois anos antes de se mudar para Bahia onde se tornaria chantre da Sé de São Salvador. Desde o Padre Vaccas a música certamente esteve presente nas vilas de Vitória e do Espírito Santo sendo lecionada pelos jesuítas no colégio de São Tiago, utilizada nos cultos e na catequização dos indígenas.

Além da grande circulação de padres jesuítas com conhecimentos musicais entre as fazendas e aldeamentos da Capitania, existiam também instrumentos nas igrejas dessas localidades.  A Aldeia de Reritiba, atual cidade de Anchieta ES, onde o pároco faleceu em 1597, possuiu instrumentos musicais inventariados nos registros históricos da ordem religiosa. O livro Os Jesuítas e a Música no Brasil Colonial do musicólogo Marcos Holler (2010) descreve o inventário da Aldeia, realizado em 5 de julho de 1759, ano da expulsão dos jesuítas. Na transcrição do documento original que se encontra preservado no Arquivo Histórico Ultramarino de Portugal podemos ver no item instrumentos e mais móveis da Igreja: um órgão pequeno, um cravo sem cordas e um baixão. Além dos instrumentos encontramos no livro relatos de índios executando instrumentos musicais europeus. Uma Relação da Província do Brasil, do início do sec. XVIII, escrita pelo padre Jácomo Monteiro, descreve a recepção dos padres em Reritiba por índios mui bons dançantes e tangedores de flautas e violas. A antiga igreja jesuítica, Igreja de Nossa Senhora da Assunção, hoje abriga o Santuário Nacional de São José de Anchieta, depois de sua canonização em 2014.

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