Músicos negros executando músicas europeias com instrumentos indígenas: O caldeirão cultural da música sul capixaba no Sec. XIX

Por Fábio Coruja

A utilização de flautas de taquara na música indígena é relatada pelos jesuítas ainda no período Colonial. Era comum os jesuítas utilizarem nome de flautas para denominar outros instrumentos de sopro tocados pelos indígenas. Quem descreveu melhor a denominação dos instrumentos de sopro desse período foi a musicóloga Helza Camêu. Segundo a Helza (1977), denominavam-se flautas todos os instrumentos constituídos por um tubo de taquara, madeira ou osso aberto em ambas as extremidades.

Em solo capixaba no início do Sec. XIX, na região norte acima do Rio Doce, a utilização de flautas de taquara nas práticas musicais dos índios botocudos foi registrada em diários de viajantes europeus. A principal referencia sobre é livro do historiador alemão Paul Ehrenreich (2014) intitulado Índios Botocudos do Espírito Santo no sec. XIX que fala das flautas de taquara como um dos instrumentos tocados por eles.

A hibridação cultural sempre foi uma característica brasileira, e isso não seria diferente com os instrumentos musicais, nesse caso, com a flauta de taquara. Nossa cultura, e consequentemente nossa música, tem em sua síntese um pouco da cultura africana, indígena e europeia, e logo, instrumentos e práticas musicais se misturaram. Luiz da Câmara Cascudo (1999) em seu Dicionário do Folclore Brasileiro descreve uma banda de taquaras como um conjunto orquestral popular em Alagoas. “Consta de dois ou três pifes (flautas) de taquara, uma caixa, dois zabumbas (bombos médios) e um par de pratos de metal.” A formação musical banda de música, tradição trazida pelos europeus, no nordeste do Brasil se apropriou das flautas de taquara dos povos originários.

O mesmo aconteceu na região sul capixaba, documentos históricos descrevem a atuação de bandas de música formadas por músicos negros livres e escravos que utilizavam instrumentos feitos desse tipo de bambu. O jornal “O Cachoeirano” do ano de 1883 traz em uma de suas colunas a descrição de uma banda de taquaras: “Na noite de 7 de setembro, exhibio-se aqui uma banda de musica sui generis. E´ ella composta de curiosos, livres uns e outros escravos, que com instrumentos imitantes do ophicleides, clarinete, flauta, flautim, etc.etc. – todos feitos de taquara-assu e taquarinha executa bem sofrivelmente algumas walsas, polkas e outras musicas ligeiras. Sofrível disse eu emendo a mão, bem bôa pois dá a cadencia necessária – para revolutear o corpo n´uma walsa. Que tal? Não invejamos os nossos homonymos. Também aqui neste Cachoeiro somos de quando em vez deliciados em nossos apurados tímpanos por uma banda de música sui generis, composta dos mesmos instrumentos de lá e mais alguns arranjados com gaitas e latas vazias de kerozene.” O livro do escritor Grinalson Medina (1931) também relata a existência de bandas de taquara na região de São Pedro do Itabapoana nos anos finais do Sec. XIX. Grinalson escreve sobre a fundação de duas bandas com instrumentos de taquara, a primeira na Fazenda Santa Rosa em 1889, sob a direção do maestro José Hermes e a segunda no ano de 1900 na Fazenda Santa Cruz, sob a direção do maestro João Lucas da Silva.

Todas as bandas de taquara relatadas na região de Cachoeiro de Itapemirim no final do Sec. XIX tinham características comuns: utilizavam instrumentos musicais de tradição indígena construídos pelos próprios músicos, eram mantidas pelos donos das fazendas de café, eram formadas por músicos negros livres e escravos, e, apresentavam um repertório de música europeia comum nas bandas de música da época, executando dobrados, marchas, polcas, valsas e aberturas de óperas italianas.

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